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19 março 2013

Entrevista concedida pelo dramaturgo e roteirista Tony Kushner, ao jornalista Jorge Pontual, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30.




Indicado a dois Oscar de “Melhor Roteiro Adaptado” — por Lincoln, em 2013, e Munique, em 2006 — Tony Kushner se tornou o melhor dramaturgo de sua geração nos Estados Unidos há 20 anos, com a peça Anjos da América. O filme Lincoln de Steven Spielberg concorre a doze oscars, entre eles, o de melhor roteiro adaptado para Tony Kushner. Kushner já havia sido indicado pelo roteiro de Munique, outro roteiro de Spielberg. O drama encenado em todo o mundo, inclusive no Brasil, tratava da epidemia de Aids, e virou filme dirigido por Mike Nichols. Mais recentemente, Meryl Streep interpretou o papel de “Mãe Coragem”, peça de Bertold Brecht traduzida por Kushner. Casado com o jornalista Mark Harris, Tony Kushner recebeu o Milênio em seu escritório em Nova York — decorado com anjos barrocos e entupido de livros sobre a vida de Abraham Lincoln — para falar da importância do filme, sobre o maior dos presidentes americanos e da influência de Brecht no teatro contemporâneo. 
Jorge Pontual — Vamos falar de Lincoln. Talvez você tenha conseguido mostrá-lo de uma maneira inesperada, porque não foi como o herói, o messias, um personagem unidimensional, mas como uma pessoa como qualquer outra. Quero dizer, ele é Lincoln, não é qualquer um. Nós nunca seríamos como ele. Mas me conte como você conseguiu torná-lo uma pessoa real.Tony Kushner — Bem, eu não acho que o tenha tornado uma pessoa real. Meu trabalho era achar uma maneira de dramatizar um momento do governo dele. Parte disso foi pesquisar e ser criativo para tentar adivinhar como ele deve ter sido quando estava vivo. Quando se escreve qualquer coisa em um formato dramático, você precisa ter personagens complicados e contraditórios. Então, escrever sobre um personagem unidimensional, com um só lado, seria muito esquisito. Mataria qualquer esperança de fazer algo interessante dramaticamente. E parte do trabalho era contar a verdade sobre ele, tentar entendê-lo tanto quanto é possível entender alguém com a considerável genialidade de Lincoln. É óbvio que sempre haverá facetas dele que serão um mistério, que irão fugir a uma compreensão total, mas essa é a genialidade dele, e o que o torna alguém tão extraordinário. Mas, para analisá-lo como teórico político, estrategista, analista governamental, escritor e homem de família, há bastante material nos registros históricos. E uma boa pesquisa pode proporcionar o que parece um retrato bem justo de como ele era.
Jorge Pontual — Mas o filme tem esse foco político. Fala de eleição, de política, do Congresso e de coisas que normalmente desanimam as pessoas. Eu não sei se aqui é assim, mas, no Brasil, somos muito céticos com relação à política. Não ligamos muito para os políticos e acho que aqui também é um pouco assim. Há histórias sobre a influência do dinheiro em Washington, o lobby e tudo o mais. Mas você mostrou que a verdadeira política pode mudar as coisas e atingir objetivos grandiosos, como a abolição da escravatura.Tony Kushner — Há certo grau de ceticismo natural à política, pois ela não é um processo simples, ela envolve negociações, que são, em grande parte, o tema do filme. Sem dúvida, nos EUA, no Brasil e no mundo todo, há algum ceticismo do povo com relação ao governo. Mas certo grau saudável de ceticismo deveria vir acompanhado da confiança de que o processo democrático é capaz de produzir progressos e, até mesmo, mudanças radicais revolucionárias. Como Karl Marx disse, quando Lincoln assinou a Proclamação de Emancipação, ele transformou a Guerra Civil em uma revolução. E seria perfeitamente plausível que a guerra terminasse com as características política, jurídica, ética humana dos Estados Unidos inalteradas, exceto pela morte de 750 mil pessoas. Lincoln garantiu, através de um processo democrático, que essas características mudassem profundamente como consequência da guerra. Eu nunca entendi por que as pessoas se desanimam com a política. Nada é mais interessante, mais rico, e mais repleto de drama e de todas as coisas que fazem o comportamento humano ser tão interessante. E todas as outras áreas do pensamento inquisitivo, Filosofia, Teologia, Economia e Psicologia, estão presentes na política. É uma amálgama. É a expressão do ser humano. Acho que foi Emerson que a define como “o movimento da alma humana ilustrada no poder”. É algo que sempre me fascinou. Escritores de teatro e cinema usam a política em suas peças e filmes porque ela tem um lado muito dramático. Ela reúne coisas contraditórias, que levam a batalhas em que uma derrota o outro ou um anula o outro, e algo novo surge no lugar. É algo muito empolgante. Por isso eu estava confiante de que poderíamos fazer um filme empolgante em torno dessa luta.
Jorge Pontual — Lincoln era republicano.Tony Kushner — Era.
Jorge Pontual — Mas, recentemente, o governador do estado onde você cresceu, a Louisiana, Bobby Jindal, disse: “Temos que parar de ser esse partido idiota.”Tony Kushner — Bobby Jindal pode começar sendo, ele mesmo, menos idiota. Ele é, simplesmente, horrível.
Jorge Pontual — Bem, Obama, venceu, consagrou os direitos dos homossexuais, que são parte dessa briga. Mas a briga continua e só um quinto dos estados permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As questões étnicas e os negros são parte dessa briga. A desigualdade existe.Tony Kushner — É.
Jorge Pontual — E a desigualdade de renda está crescendo, até mesmo no governo Obama. E os republicanos têm maioria no Congresso.Tony Kushner — No Congresso, sim.
Jorge Pontual — Eles podem vetar qualquer coisa. Como você vê essa briga política? Nós estamos vendo as mudanças, mas o que fazer quanto a isso?Tony Kushner — De um ponto de vista progressista, o que se deve fazer é o que temos feito nos últimos quatro anos. Acho essencial que, agora que Barack Obama foi reeleito, e a Casa Branca é dirigida por um democrata. A próxima eleição também é importante, e a seguinte também. Precisamos começar a reconstruir o momento que vivíamos nos anos 1960. Nós perdemos muito terreno, principalmente a partir de 1981 com a contrarrevolução de Reagan. E muito do que hoje parece apenas bom senso, há 20 anos, pareceria uma loucura da ala de direita. Como as ideias de que o egoísmo é uma virtude, de que tornar os ricos mais ricos ainda trará riqueza para toda a população, de que os impostos são ruins e de que o governo em si é ruim. Essas coisas há 20 ou 30 anos, seriam vistas como ideias extremamente absurdas, mas hoje se tornaram um pensamento convencional. E não só nos EUA. Isso saiu daqui e se espalhou principalmente na Europa. E a América Latina sofreu durante anos com a insistência dos bancos nesses programas de cortes e a mania do equilíbrio no orçamento. A construção de uma tomada de poder coerente por parte de pessoas progressistas é essencial. A esquerda política deve reinvestir na ideia da democracia eleitoral, e, até certo ponto, abandonar os sonhos e fantasias de uma revolução, que é a visão romântica da esquerda que tornou mais fácil viver nessa impotência por mais tempo do que qualquer um viveria confortavelmente. Estamos no caminho para criar um ambiente político novo neste país, mas não sei o que vai acontecer do outro lado. Nós precisamos ver se há pessoas conscientes tentando retomar o controle do partido, pois eu não sei.
Jorge Pontual — Eu estava vendo a entrevista que você deu a meu colega Edney Silvestre em 1997, que foi, principalmente, sobre Anjos na América. Você defendia o teatro apaixonadamente, em oposição ao cinema. Você dizia que o cinema não era tão bom, pois envolve muito dinheiro, não permite liberdade. Você mudou, não foi? Mudou seu ponto de vista?Tony Kushner — Eu espero não ter dito que o cinema era algo ruim, porque eu sempre gostei de ver filmes. Eu adoro cinema e adoro televisão. É uma mídia muito diferente. Como eu sempre disse, no teatro acontecem coisas que não acontecem no cinema. O cinema tem uma maior capacidade, que cresce cada vez mais, de criar uma ilusão perfeita. E o poder dessa ilusão é tal, que ele cria um laço enormemente forte entre o que está sendo visto e a pessoa que está vendo. De certo modo, ele deixa o público isolado do resto do mundo. Como o teatro é mais fraco em criar ilusões, não faz isso tão bem, e deixa mais espaço para o ceticismo e para uma visão dúbia. Em uma peça, você vê algo que é real, mas, ao mesmo tempo, não é. Você percebe muito mais a presença do público do qual você faz parte. Acidentes podem acontecer e o que você está vendo pode não ser o que foi visto na noite anterior. Eu adoro essas coisas no teatro e elas não acontecem no cinema. Em 1997, eu falava muito e, até hoje, eu só fiz dois filmes. Mas a maior parte das coisas que eu pensava sobre cinema estavam razoavelmente certas. É um formato muito diferente, tem mais a ver com a narrativa do que com dialética. O teatro é mais dialético. É um produto. Quando o DVD de Lincoln for lançado, você terá o filme em uma caixa. Você pode apertar um botão e baixá-lo em seu computador, mas o filme nunca irá mudar. As percepções podem mudar, mas o filme em si é algo fixo. O teatro é totalmente diferente disso. Ele cria uma ansiedade excitante. 
Jorge Pontual — Você quer voltar ao teatro? Fazer mais teatro?Tony Kushner — Quero. Sempre serei um dramaturgo mais do que tudo. É muito difícil viver como dramaturgo nos Estados Unidos de hoje. Como eu faço filmes, eu ganho mais, tenho plano de saúde. Eu gosto muito. Fazer cinema nunca foi uma experiência ruim. Quando eu fizer um roteiro de filme e alguém me tratar mal eu direi: “chega de cinema.” Mas eu fiz uma série de TV com Mike Nichols e dois filmes com Steven Spielberg e foram ótimas experiências. Os dois são artistas realmente brilhantes. Eu estou trabalhando em outro roteiro para Steven e adoramos trabalhar juntos. 
Jorge Pontual — Pode dizer o que vai ser?Tony Kushner — Não posso. Eu me comprometi a manter segredo absoluto sobre isso. Mas é um assunto interessante. E eu adoro trabalhar com ele. Artisticamente, é uma experiência muito recompensadora. Eu sinto que aprendo muito.
Jorge Pontual — Nesta entrevista, eu planejava falar apenas sobre Brecht. Porque eu cresci no Brasil, nos anos 1960 e 1970, e eram as melhores coisas que víamos no teatro. José Celso Martinez Correa e o irmão dele, Luís Antônio Martinez Corrêa, eram brechtianos, e nós adorávamos Brecht. E essa também é a sua escola, não é? A melhor peça que eu vi aqui, nos Estados Unidos, foi uma tradução sua de Mãe Coragem e Seus Filhos, com Meryl Streep e foi realmente incrível.Tony Kushner — Obrigado. Eu fico feliz.
Jorge Pontual — Foi muito boa mesma. Me fale um pouco sobre as técnicas que você aprendeu de Brecht, sobre a visão do teatro. Foi algo que você também usou em Lincoln, não? Porque, em vez de mostrar Lincoln fazendo o discurso de Gettysburg, você mostrou soldados negros o reproduzindo. Isso parece coisa de Brecht.Tony Kushner — Você tem razão. Eu nunca pensei nisso, mas é verdade. Há essa técnica da distância, de fazer algo familiar parecer estranho e novo por ser dito em um contexto diferente.
Jorge Pontual — É engraçado, porque eu perguntei a opinião de algumas pessoas, e elas disseram que ficou artificial. É claro. Porque quebra as expectativas, não é?Tony Kushner — E a questão da artificialidade é algo com que eu tenho lutado desde que comecei a trabalhar com cinema. Há uma expectativa de total naturalidade, que é estranha, considerando-se a artificialidade de cada quadro. Tudo é cuidadosamente planejado, as cores, depois tudo é levado ao laboratório e... Enfim, menos com Lincoln do que com os outros filmes atuais, que contam com muita manipulação de imagem por computador. Mas eles não fizeram nada, a iluminação era mesmo aquela.
Jorge Pontual — Não vai concorrer ao Oscar para efeitos especiais.Tony Kushner — Não, não é animação em computador. E eu adoro esse aspecto do filme, pois o faz parecer um tanto artesanal. Mas, infelizmente... É por isso que eu gosto do trabalho de cineastas como Lars von Trier, que é mais próximo do teatro e vai contra aquela sensação de naturalidade do público. Eu acho que essa obsessão com a naturalidade é algo problemático. A principal coisa que aprendi com Brecht foi – e eu já disse isso – a maneira como o teatro cria uma consciência crítica no público, obrigando-o a lutar com a aparência superficial das coisas e com o que está por trás dessa aparência. Para ter consciência do efeitos que foi criado, mas também das relações humanas que criaram esse efeito e do tipo de trabalho que está por trás da superfície aparente das coisas. Nisso, Brecht é um pouco como Shakespeare, que também se interessava muito por isso. Meus sentimentos sobre Brecht mudaram muito. Originalmente, eu achava que Mãe Coragem era uma peça com cenas que poderiam ter uma construção diferente, como ele disse. Mas, após traduzir a peça e trabalhar nela, com Meryl aqui, e com Fiona Shaw e Deborah Warner em Londres, eu sinto, com maior convicção do que nunca, que, de certo modo, Mãe Coragem e Seus Filhos tem uma construção maravilhosa de um arco psicológico coerente que caminha do início da peça até o final. E, na produção, Brecht prestou um desserviço com sua estranha crença de que a atuação não deveria partir de muita observação psicológica, pois isso não é verdade. As relações familiares em Mãe Coragem são a vida da peça, e cada personagem... Eles têm nomes como “o General”, “o Fazendeiro”, fazendo os atores se sentirem como desenhos animados. Mas, na verdade, cada personagem, e eles são muitos, é lindo e criado com muita especificidade. Ele sempre dá a todos os personagens um momento de comportamento surpreendente e incoerente que faz aquela pessoa ganhar vida. Os atores e diretores, quando fazem algo de Brecht, devem levar isso em conta. Ele realmente é um descendente direto de Goethe, Schiller e Von Kleist. Há, em Brecht, uma dramaturgia alemã que, às vezes, é ignorada. Não é propaganda, é mais. Quando fizemos Mãe Coragem e Seus Filhos, vários britânicos surgiram esbravejando de tudo sobre Brecht: “Ele era stalinista! Por que fazer uma peça dele? Ele está ultrapassado, ninguém acredita mais nele”. Um idiota de Londres escreveu um artigo enorme num jornal dizendo que é uma peça nojento, pois é pacifista, escrita no final dos anos 1930. Brecht fugiu de Hitler, mas o crítico dizia que Brecht apoiava o pacto de não-agressão de Hitler e Stalin. É claro que Mãe Coragem não é, de forma alguma, uma peça pacifista. O grande momento heroico é quando Katrin sobe no telhado e acorda toda a cidade. Não para desarmá-la, mas para ela se erguer e se defender, para lutar. Não é uma peça contrária à guerra. Não é de amor à guera.
Jorge Pontual — Ele via a guerra como um meio para se chegar a um fim.Tony Kushner — Exato. Mais do que isso. Quando se ouve aquele discurso incrível do pastor na cena seis, que fala de um cara que perdeu a perna, mas que, logo depois, estava fazendo sexo com alguém numa vala e que teve filhos, e aqueles filhos cresceram... Há uma espécie de versão no estilo pesadelo da guerra não só como negócio, mas como a vide em si. Há uma vitalidade nela que Brecht não tinha medo de mostrar. Umas das coisas que Brecht sempre mostrava e em que as pessoas não prestam muita atenção era o custo do sacrifício. Ele entendia que, para ser parte do coletivo e ter uma sociedade em maior comunhão, às vezes, é preciso sacrificar o próprio ego em prol da necessidade da coletividade. Como nas pequenas peças que ele escreveu. Mas o que ele sempre faz não é um sermão para as pessoas do tipo: “Faça isso e tudo será ótimo.” O que ele diz é: “Quando você faz isso, parece a morte. Fazer isso é terrível. Se fizer isso, você se sentirá como se estivesse morrendo.” Ele reconhece isso, e as peças têm um lado obscuro por isso.
 Jorge Pontual — E há uma fala de Mãe Coragem, quando ela e o pastor estão cantando para conseguir comida, quando estão passando fome.Tony Kushner — Com o cozinheiro.
Jorge Pontual — E ela diz, acho que isso resume o seu trabalho e o trabalho de Brecht: “O mundo é assim, mas não deveria ser.”Tony Kushner — É verdade. Um dos últimos poemas dele diz: “E sempre pensei: as palavras mais simples devem bastar. Fracassarás se não te defenderes. Certamente verás”. Isso é o poema todo. E ele é muito tocante, porque, como ele diz, as verdades mais profundas são, de certo modo, muito simples. Ter pena de si mesmo e de outras pessoas e agir no seu interesse e no interesse dos outros deveria ser suficiente para mudar tudo. E é claro que o que nos entristece é o que não é dito nessa declaração, mas que é como um trovão por causa da simplicidade dele, que é: o mundo é assim, mas não deveria ser assim. Mas é assim. Então, isso tem seu lado trágico também.
* Entrevista gravada antes da premiação do Oscar. O prêmio de "Melhor Roteiro Adaptado" ficou com Chris Terrio, por Argo. Fonte: Consultor Jurídico

05 março 2013

'Strip Solidão': curta-metragem revive mito das Amazonas

Os selecionados receberão um retorno da produção, que marcará data e horário para a realização dos testes, a serem feitos na Casa de Cinema do Amazonas, localizada na rua Ferreira Pena, 145, Centro, nos dias 14, 15 e 16 de março

Vencedora do concurso de roteiros do 9° Amazonas Film Festival (AFF), a realizadora de audiovisual Flávia Abtibol iniciará o processo de desenvolvimento do seu curta-metragem, intitulado “Strip Solidão”, pela seleção do elenco. Para participar, os interessados devem preencher uma pequena ficha que estará disponível no endereço eletrônico blogdestripsolidao.blogspot.com e na página no Facebook “Strip Solidão”. Depois disso, até o dia 12 de março, é necessário encaminhar o material para o e-mail contato.stripsolidao@gmail.com, contendo uma foto de rosto e outra de corpo inteiro.
Os selecionados receberão um retorno da produção, que marcará data e horário para a realização dos testes, a serem feitos na Casa de Cinema do Amazonas, localizada na rua Ferreira Pena, 145, Centro, nos dias 14, 15 e 16 de março.
História
O filme “Strip Solidão” é uma livre transposição do mito das Amazonas para os dias atuais. Na trama, as mitológicas guerreiras são simbolizadas pelas prostitutas que habitam as boates da área portuária de Manaus, local habitado por uma atmosfera ora grotesca, ora bela, e por uma dilacerante solidão.
“A trama, pontuada por esperança e desilusão, tem como personagens principais a prostituta Luana, o marítimo Téo e um cineasta estreante. Juntos, os três personagens simbolizam a gênese do mito das Amazonas: Luana é a própria guerreira, o marítimo Téo simboliza o navegador espanhol Francisco de Orellana e o cineasta representa Frei Gaspar de Carvajal, responsável pelo relato de viagem que deu origem ao mito que perdura até hoje”, contou Flávia Abtibol, que assina o roteiro, a direção e a produção executiva.
Este é o primeiro curta de uma trilogia que a jornalista pretende desenvolver, intitulada “Tríade do Descobrimento”. Este primeiro irá enfocar a história sob a ótica da prostituta, o segundo será a versão do marítimo, e o terceiro será o relato contado pelas lentes do cineasta. Cada película terá até 15 minutos de duração.
Estreia
“Este é o meu primeiro filme de ficção, e marca o meu início de interesse por tramas ficcionais, de entender como elas são capazes de construir universos que estão perdidos na nossa vida, nas cidades, nas ruas... Universos que ficam num limbo causado pela vista cansada do dia a dia, pelo vaivém das cidades, nas idas e vindas das pessoas”, informou Flávia.
As cenas serão gravadas no interior de uma boate de strip tease de Manaus. A previsão é que as filmagens iniciem no final do próximo mês. Segundo a idealizadora, a equipe está estreitando parcerias com alguns proprietários que, de antemão, mostraram-se bem “dispostos em contribuir com a cultura amazonense”.
Equipe concentrada
Segundo Flávia Abtibol, responsável pelo curta-metragem “Strip Solidão”, alguns arranjos de produção já foram sendo discutidos desde o dia seguinte à premiação no Amazonas Film Festival (AFF), como locações, figurino e a própria composição da equipe. Os trabalhos, porém, só começaram a ser realizados efetivamente na semana passada, quando ela começou a reunir os integrantes da equipe que moram em Manaus e a estreitar a relação com os demais profissionais que moram em outros Estados.
“A equipe do filme está quase toda formada. São profissionais bem heterogêneos, entre estreantes e profissionais já conhecidos do mercado cinematográfico brasileiro, como o diretor de som Márcio Câmara, de filmes como “Deus é brasileiro” e “Elvis e Madona”, e o diretor de fotografia Emerson Bueno, do filme “400 contra 1”.
Apoio
A direção de arte será assinada pela artista visual e professora do Departamento de Artes da Ufam, Kasmin Carnevali. A produção será de Jalna Gordiano. A produção de elenco está sob a coordenação da atriz Mariana Baldoino, e a preparação dos atores ficará com o professor Luiz Carlos Martins.

04 fevereiro 2013

Bráulio Mantovani fala sobre temas essenciais no canal Story Touch

Bráulio Mantovani, nascido em 1963, é considerado um dos melhores roteiristas brasileiros da atualidade, tendo se tornado popular graças ao roteiro do consagrado "Cidade de Deus", dirigido por Fernando Meirelles.
Ele se formou na PUC em "Língua e Literatura Portuguesa", tendo se pós-graduado em Roteiro Cinematográfico pela Universidade de Madri. Começou sua carreira em grupos de teatro e em 1987, passou a escrever roteiros profissionalmente. 
No Brasil, sua carreira despontou para o grande público com o roteiro do curta-metragem "Palace II" (2011), e em seguida "Cidade de Deus" (2002), ambos dirigidos por Fernando Meirelles. Vale lembrar que "Cidade de Deus" foi indicado a quatro Oscar em 2004, incluindo melhor roteiro.

Mantovani também trabalhou em diversas produções de sucesso como "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias", "Linha de Passe", "Chega de Saudade", "VIPs", "Tropa de Elite" e "Tropa de Elite 2".
Abaixo, trazemos para vocês uma série de entrevistas/aulas de Bráulio Mantovani, divulgados em 2012 pela "Story Touch" em seu canal no Youtube, e que abordam diversos temas essenciais para todo roteirista. Vale a pena assistir! Escolha o tema e clique nos links.


28 janeiro 2013

Festivais de cinema: inscrições no Chile e vencedores em Tiradentes

Inscrições abertas para festival de documentários no Chile


Estão abertas até o dia 5 de abril as inscrições para o Festival Internacional de Documentales de Santiago – Fidocs. O evento, que acontece na capital chilena de 24 a 30 de junho, terá uma competição latino-americana de longas-metragens e uma competição internacional de curtas-metragens.  Mais informações e inscrições no site: www.fidocs.cl.


Mostra de Cinema de Tiradentes anuncia vencedores

Fonte: CINEMA UOL
Veja a lista dos premiados da 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Melhor curta da Mostra Foco eleito pelo Júri da Crítica - "Meu Amigo Mineiro", de Gabriel Martins e Victor Furtado
Melhor curta pelo Júri Popular - "A Onda Traz, o Vento Leva", de Gabriel Mascaro
Melhor longa eleito pelo Júri Popular - "Dossiê Jango", de Paulo Henrique Fontenelle
Melhor longa da Mostra Aurora eleito pelo Júri Jovem - "Os Dias Com Ele", de Maria Clara Escobar
Melhor longa da Mostra Aurora eleito pelo Júri da Crítica - "Os Dias Com Ele", de Maria Clara Escobar

As 5 melhores coisas da 16ª Mostra
- A consolidação da Mostra como espaço para cinema de pretensão autoral.
- A simpatia e a inteligência de Simone Spoladore, homenageada da edição.
- A sessão de "Doce Amianto", a bela ousadia cearense, e o incrível debate que aconteceu no dia seguinte.
- A emoção do diretor Marcelo Lordello no debate de seu longa, "Eles Voltam".
- A revelação dos curtas "Meu Amigo Mineiro" e "Frineia", mostrando, respectivamente, capacidades de inventar e de seguir muito bem um modelo de cinema.

As 3 piores coisas da 16ª Mostra
- Continua elevado o número de longas (34) e curtas-metragens (97). São muitas sessões para poucos filmes bons.
- O exagero na exaltação de alguns filmes ("Eles Voltam", "Doméstica", e mesmo os bons "Os Dias Com Ele" e "Matéria de Composição").
- A invasão de turistas nos fins de semana. Fica muito ruim de andar nas proximidades do Cine Tenda.

24 janeiro 2013

Entrevista com o escritor Sidney Sheldon, publicada em 2003

Fonte: Café com Letras

Entrevista de 2003, dada à Tribuna.



Ele vendeu mais de 350 milhões de livros. Ganhou um Oscar, um Tony, tem uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood e criou uma das séries de tevê mais conhecidas do mundo (Jeannie é um Gênio): Sidney Sheldon, aos 86 anos, está mais na ativa do que nunca. Escreve dois romances (um deles uma autobiografia). Nesta entrevista, ele fala de sua carreira no cinema, na tevê e na literatura e conta histórias de seus mais de 70 anos no showbiz.



Como o sr. começou sua carreira e o que o levou a isso?
Vendi meu primeiro poema quando tinha 10 anos. Eu sempre soube que queria ser um escritor, acho que o talento vem de Deus e todos os que possuem algum talento, seja na literatura, na pintura ou na música, não deveriam levar o crédito por isso, mas sim agradecer por esse dom de Deus.

Quais de seus romances o sr. considera os melhores?
São três os que tenho mais carinho: O Outro Lado da Meia Noite, O Mestre do Jogo e Se Houver Amanhã.

Qual é, na sua opinião, a razão para seus livros venderem tanto?
É simples: acho que meus livros vendem bastante porque meus personagens parecem pessoas reais. Eu penso em mim mesmo ao escrever, no que eu gosto e no que acho que julgo ser o mais natural possível e acho que, por consequência, os leitores sentem a mesma familiaridade.

Como vive o homem Sidney Sheldon?
Eu e minha esposa Alexandra nos dividimos entre nossas casas em Los Angeles e Palm Springs, na Flórida. Recentemente, vendemos uma casa que tínhamos em Londres, porque não tínhamos muito tempo para ir lá. Compramos essa casa, um bonito duplex, de Andrew Lloyd Weber. Nós gostamos muito de viajar, já visitamos mais de 90 países.

Qual é seu ritmo de trabalho?
Começo, normalmente, às 9 da manhã e trabalho até as 18 horas. Quando tenho insônia (o que é muito comum), vou para o escritório e passo muitas horas da madrugada escrevendo, também. Trabalho sete dias por semana.

Sem descanso?
Mesmo encarando com toda seriedade, não vejo o que faço como trabalho, no sentido ruim da palavra. Faço o que gosto e porque gosto.

E seus gostos pessoais em literatura, música e cinema, quais são?
A lista dos meus autores favoritos inclui nomes como Thomas Wolfe, Sinclair Lewis, Booth Tarkington e George Bernard Shaw. Em relação a música e cinema, prefiro os artistas – e as obras – com os quais cresci: os filmes dos anos 40 e 50 e músicos como Jerome Kern, Cole Porter, George Gershwin e Irving Berlin.

Não faz muito tempo que o sr. escreve livros para crianças. Como surgiu essa idéia e quais são as diferenças de estilo entre o píblico adulto e o infantil?
Não vejo diferenças fundamentais. O básico, tanto em relação às crianças quanto aos adultos, é que a história deve ser excitante e os personagens interessantes o suficiente para prender a atenção. Escrevi meu primeiro livro infantil porque meu editor no Japão achava que as minhas histórias eram tão envolventes que as crianças gostariam de lê-las.

Escrever é uma questão de inspiração ou estudar ajuda?
Ah, 100% de inspiração, a transpiração é consequência. Não há possibilidade de que alguém sem idéias consiga produzir algo de qualidade.

Seu primeiro trabalho foi uma peça de teatro, quando o sr. tinha 12 anos. Qual era o tema desta peça e como ela foi feita?
Minha professora de Inglês leu essa peça quando eu tinha 12 anos, mas ela foi escrita um pouco antes. Ela gostou muito e me disse que gostaria de encená-la. Eu, claro, fiquei muito entusiasmado. Acho que ela gostou muito mesmo, porque convidou todos os alunos da escola para assistir, no auditório, a encenação. Eu fui o produtor, o diretor e, claro, escalei a mim mesmo para o papel principal. Era uma história de detetive. Quando chegou minha vez de entrar no palco, entrei em pânico e comecei a rir sem parar. A professora me chamou em um canto e tentou me acalmar, em frente àquele auditório enorme, mas não conseguiu. A peça nunca foi encenada.

E a televisão, como apareceu?
Comecei a escrever para televisão por acaso. Meu agente me pediu para criar um seriado de tevê para o ator Patty Duke, que acabara de ganhar um Oscar pelo filme The Miracle Worker. Criei The Patty Duke Show e, em seguida, Jeannie é um Gênio. Escrevi os episódios das duas séries ao mesmo tempo, por muito tempo.

Como foi trabalhar em Jeannie é um Gênio, um dos sitcoms (Situation Comedy, seriados cômicos) mais conhecidos da tevê em todo o mundo? Produzir Jeannie é um Gênio foi uma experiência maravilhosa. Eu tinha um elenco excepcional e tive o mérito de contratar os melhores diretores disponíveis.
Os primeiros episódios da série foram ao ar em preto e branco, mas na época a tevê a cores já existia. Por que essa opção?
Não foi uma opção, até hoje não entendi direito como isso aconteceu. No ano em que Jeannie foi ao ar, todas as estações de tevê já tinham migrado para o sistema em cores. Naquele ano, apenas dois seriados foram produzidos em preto e branco. Um era um drama de guerra e o outro, Jeannie. Perguntei ao estúdio o porquê disso e recebi, como resposta, o argumento de que produzir em cores era muito caro, custaria alguns milhares de dólares a mais por ano. Fiquei tão atônito com essa resposta que até me coloquei à disposição para pagar, do meu bolso, essa diferença. Os executivos de estúdio me aconselharam a não me preocupar, que provavelmente não haveria uma segunda temporada. Bem, o resto da história todo mundo sabe: Jeannie foi ao ar por cinco temporadas e hoje, 40 anos depois de sua estréia, ainda é sucesso no mundo inteiro, tendo suas reprises exibidas em inúmeros países, inclusive no Brasil.

Como o sr. chegou a Hollywood?
Comecei escrevendo filmes, na verdade. Cheguei a Hollywood com 17 anos. Havia oito grandes estúdios, na época, e cheguei aos portões de cada um deles e me apresentei aos guardas: “Olá, sou Sidney Sheldon e quero ser escritor”. E, como sempre acontece, não conseguia falar com ninguém. Foi durante a depressão, saí de Chicago para Hollywood e minha mãe havia me dado três semanas para arrumar um emprego ou voltar pra casa. Então, ouvi falar em uma coisa engraçada: leitores que faziam sinopses reduzidas de livros, para produtores de cinema ocupados. Fiz uma, de Mice and Man, e mandei para os estúdios. Três dias depois, estava trabalhando na Universal, ganhando US$ 17 por semana, fazendo o mesmo trabalho de ler e transformar livros em sinopses. Além disso, aproveitei para escrever meus próprios trabalhos. Os quatro primeiros foram deixados de lado, o quinto foi vendido e então me tornei roteirista, aos 18 anos.

No cinema, o sr. chegou a trabalhar com a dupla Jerry Lewis e Dean Martin antes deles se tornarem famosos. É de conhecimento público que eles não se davam nada bem fora das telas. Como foi essa experiência? Foi muito interessante trabalhar com Dean Martin e Jerry Lewis. Mesmo sendo conhecida sua antipatia mútua, ambos se comportavam muito bem no set. É conhecido de todos também que Jerry era muito controlador e Dean, um boa praça. No primeiro dia de filmagem de You´re Never Too Young, nós tínhamos uma leitura do script com o diretor, o elenco e eu. Quando terminamos, o diretor disse: “Alguma pergunta”? Dean Martin levantou-se e disse: “Não, tudo está muito bom, tenho um jogo de golfe marcado e tenho que ir”. E foi. Jerry Lewis, ao contrário, disse que tinha algumas perguntas e, pela hora seguinte, ficamos lá, discutindo todos os aspectos: ângulos de câmera, iluminação, a direção e o roteiro.

Por que sua carreira de diretor não decolou? Seria uma opção pela literatura?
Minha carreira de diretor não decolou porque eu não era muito bom, mesmo. Acredito que devemos investir nosso tempo naquilo que somos realmente bons, porque assim, as chances de sucesso são muito maiores. Mas é claro que a minha preferência são os livros.

Mesmo em relação ao teatro? O sr., que tem experiência no teatro, televisão e cinema e literatura, prefere o quê?
Escrever um livro é uma experiência bem mais livre. E mais pessoal, também. Quando escrevo um roteiro para cinema, tenho centenas de colaboradores. Em um livro, a obra é totalmente minha. Há um senso maior de liberdade, porque você cria os personagens e faz o que quiser com eles. Tem o poder de decidir quem vive e quem morre. Acho esse tipo de processo criativo extremamente estimulante.

O sr. recebeu os dois prêmios mais importantes do cinema e do teatro, o Tony e o Oscar. Tem uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. Vendeu mais de 300 milhões de livros em 181 países, traduzidos para 51 idiomas. Os estúdios usam seu nome para promover um filme, como sinônimo de qualidade. A que atribui esse enorme sucesso?
Acho que meu sucesso tem uma explicação: escrevo sobre emoções, um tema de interesse universal. Ainda tenho a impressão de que tudo isso é um sonho. Quando The Naked Face, meu primeiro livro, foi publicado, achei que iria bater um recorde da indústria: seria a primeira vez que um livro não venderia nenhuma cópia. Para evitar isso, fui até a livraria e comprei um exemplar. Desde esse dia, sempre que um novo livro meu é colocado nas livrarias, visito uma e compro uma cópia.

Normalmente, seus personagens principais são mulheres, sempre muito fortes e que lutam contra tudo e todos em nome de seus objetivos. Essa é realmente sua visão sobre as mulheres?
Odeio aquele clichê da ‘loira burra’, que diz que se a mulher é bonita, deve ser pouco inteligente. Por isso escrevo livros em que a personagem é, além de bela, boa em tudo o que faz. Minha mãe era uma mulher assim. Minha primeira esposa, Jorja, que morreu, era assim, tanto quanto minha esposa Alexandra.

Como estão seus dois próximos trabalhos, a autobiografia The Other Side of Me e o romance Are You Afraid of The Dark?
Escrevi uma primeira versão da minha biografia e pretendo recomeçar esse trabalho assim que terminar Are You Afraid of The Dark.

·         Vida e carreira
·         1917 – Nasce no dia 11 de fevereiro, em Chicago.
·         1934 – Chega a Hollywood, onde se torna roteirista.
·         1941 – Ele se alista na força aérea americana e combate na Segunda Guerra Mundial.
·         1942 – Três musicais escritos por Sheldon dominam a Broadway.
·         1948 – Ganha um Oscar pelo roteiro de The Bachelor and The Bobby Soxer.
·         1959 – Ganha um Tony como co-autor do musical Redhead.
·         1964 – Cria, escreve e produz Jeannie é Um Gênio. Durante os cinco anos da série, ele escreveu 78 roteiros de episódios.
·         1969 – Escreve o primeiro livro, The Naked Face.
·         1975 – Seu segundo livro, O Outro Lado da Meia-Noite, alcança o primeiro lugar na lista de best-sellers do New York Times.
·         1988 – O livro As Areias do Tempo alcança o primeiro lugar da lista de best-sellers do New York Times antes mesmo de ser lançado.
·         1997 – Sheldon ganha destaque no livro Guiness dos recordes, como o autor mais traduzido no mundo.
·         2007 – Falece em 30 de janeiro em Rancho Mirage 


Entrevista em INGLÊS, sem legendas.
Nesta entrevista de 5 partes, o escritor e produtor Sidney Sheldon  (1917 - 2007) lembra de seus anos iniciais em Hollywood como roteirista de filmes, que lhe proporcionaram um Oscar por "The Bachelor and the Bobby Soxer." Sheldon discute também a criação de The Patty Duke Show. Relembra como, durante esse trabalho, foi abordado pelo Screen Gems para produzir uma sitcom -- Jennie é um gênio. Depois, conta como criou Nancy, uma sitcom curta datada de 1970, e também "Casal 20" (Hart to Hart - episódio piloto) que foi produzido por Aaron Spelling. O autor também conta sua mudança de roteirista de televisão para escritor de romances, e compartilha seu incrível feito de ter dezesseis livros como best-seller, muitos dos quais foram transformados em filmes de sucesso. 

18 janeiro 2013

Saiba mais sobre o roteirista Jorge Furtado

O gaúcho Jorge Furtado, nascido em 1959, já cursou Medicina, Artes Plásticas, Psicologia e Jornalismo, sem concluir nenhum dos cursos. Começou sua carreira na televisão no início dos anos 80, como produtor, editor, roteirista e apresentador da TV Educativa no Rio Grande do Sul.
Em 1987, se tornou um dos fundadores da "Casa de cinema de Porto Alegre", e sua carreira começou a chamar a atenção com o curta-metragem "Ilha das Flores", que ganhou o Festival de Berlim em 1989. A partir daí, começou a trabalhar para a Rede Globo, roteirizando programas de humor como "Dóris para maiores", até começar uma parceria bem sucedida e que perdura até hoje com Guel Arraes. Logo, filmes como "O homem que copiava", "Meu tio matou um cara" e "Saneamento básico, o filme" se tornariam sucesso e referência de bons roteiros. 

O vídeo abaixo traz Jorge Furtado narrando sua própria carreira, e seu gosto pela narrativa. Também trouxemos o curta "Ilha da Flores" pra você conferir o talento do roteirista gaúcho, no início de sua carreira. Confira!


Entrevista Jorge Furtado - parte 1 de 4

Ilha das Flores - curta-metragem de Jorge Furtado

15 janeiro 2013

João Nunes: porque nunca devemos escrever de graça

Fonte: www.joaonunes.com. Texto escrito pelo roteirista e escritor João Nunes, publicado em seu site em 26/06/2012.



João Nunes é natural de Portugal, hoje morador de Manaus.
Roteirista de talento, os posts publicados em seu site abordam a carreira de roteirista audiovisual, sempre com muita informação e humor. Para aqueles que nunca leram seus textos, lembramos que o autor utiliza terminologias portuguesas, como "guionista" ao invés de "roteirista", "guião" ao invés de "roteiro".

Vamos ao texto!


"A tentação de escrever de graça


Quem começa a ten­tar sin­grar na pro­fis­são de gui­o­nista mais tarde ou mais cedo vai ser desa­fi­ado a escre­ver de graça.
As jus­ti­fi­ca­ções serão sem­pre dife­ren­tes; a res­posta, pelo con­trá­rio, deverá ser sem­pre a mesma: “Não, obri­gado; não posso dar-​​me ao luxo de tra­ba­lhar sem ser pago”.
Con­tra mim falo, pois já ali­nhei em situ­a­ções des­sas mais de uma vez. Deixem-​​me con­tar duas des­sas experiências.

Primeiro caso

Um amigo, rea­li­za­dor de publi­ci­dade muito talen­toso, convidou-​​me há alguns anos atrás para uma con­versa acerca de um pro­jeto de cinema.
O seu obje­tivo era apre­sen­tar um guião, escrito a par­tir de uma ideia sua, a um impor­tante pro­du­tor por­tu­guês. O pro­blema é que não tinha tempo, nem voca­ção, para o escre­ver por si mesmo.
Infe­liz­mente tam­bém não tinha pos­si­bi­li­dade de pagar a um gui­o­nista para o fazer.
Devia ter-​​me escu­sado ime­di­a­ta­mente, mas por sim­pa­tia pedi-​​lhe para me expli­car a ideia. Era ape­nas um esboço, muito crú, mas alguns dos seus ele­men­tos mexe­ram com a minha imaginação.
Pas­sa­dos alguns dias avan­cei com uma con­tra­pro­posta: não escre­ve­ria um guião mas se ele esti­vesse inte­res­sado podia desen­vol­ver um tratamento.
É óbvio que ele acei­tou. O que é que tinha a perder?
Come­çara a nego­ci­a­ção ape­nas com uma ideia inci­pi­ente e ia sair dela com um tra­ta­mento pronto a apre­sen­tar a um pro­du­tor, sem gas­tar mais do que a bebida que me pagou.
Escrevi o tra­ta­mento, que me deu muito gozo e satis­fa­ção, mas tam­bém muito tra­ba­lho. Enviei-​​o.
Pas­sa­dos alguns dias, recebi uma pequena mon­ta­gem em vídeo com uma espé­cie de teaser-​​trailer (ele é um tipo muito talen­toso, como já referi).
Fiquei entu­si­as­mado: “Wow, isto vai ser bom”.
E depois, mais nada.
Tanto quanto sei o pro­jeto mor­reu sem sequer ter sido apre­sen­tado ao tal produtor.

Segundo caso

Há três anos atrás tive uma ideia para uma mini-​​série de tele­vi­são. Modés­tia à parte, era uma boa ideia.
Por minha conta e risco desen­volvi os tra­ta­men­tos com­ple­tos de todos os epi­só­dios. Quando fiquei satis­feito com o resul­tado, apresentei-​​o a um produtor.
Ado­rou o pro­jeto, que encai­xava quase per­fei­ta­mente nos seus pla­nos para uma co-​​produção importante.
Só fal­tava o “quase”.
Para ficar per­feito seria pre­ciso intro­du­zir algu­mas alte­ra­ções no tom e enredo da estó­ria. Estava dis­posto a fazê-​​las?
Ape­sar de não muito satis­feito com o rumo suge­rido acei­tei fazer as mudan­ças pedi­das. Às quais se segui­ram mais algu­mas suges­tões, e depois ainda outras indicações.
Final­mente decidi parar de escre­ver, o que coin­ci­diu com a infor­ma­ção de que tinha havido um con­tra­tempo na co-​​produção: o pro­jeto tinha sido sus­penso, e só eu ainda não sabia de nada.

Cada um é como cada qual

Não estou abor­re­cido com nenhum dos meus inter­lo­cu­to­res nes­tas duas estórias.
Limitaram-​​se a apro­vei­tar a minha dis­po­ni­bi­li­dade para tra­ba­lhar de graça. Qual­quer pes­soa no lugar deles faria o mesmo.
A culpa não foi deles; foi minha.
No pri­meiro caso cometi o erro de me dei­xar apai­xo­nar pela ideia, quando não havia con­di­ções para pagar o meu tra­ba­lho. Apa­ren­te­mente, apaixonei-​​me até mais do que o meu amigo.
No segundo caso, o erro foi ainda maior. Acei­tei fazer alte­ra­ções a um tra­ba­lho meu — ainda por cima alte­ra­ções em que não acre­di­tava com­ple­ta­mente — sem ter sequer um con­trato assinado.

Porque é que os produtores agem assim?

Por­que podem.
Por­que nós, os gui­o­nis­tas, os deixamos.
Por­que são humanos.
Qual­quer pro­du­tor que se preze tem, em cada momento, vários pro­je­tos em desen­vol­vi­mento. O seu entu­si­asmo em rela­ção a esses pro­je­tos vai vari­ando com o tempo, em fun­ção de uma imen­si­dade de fatores.
O pro­jeto favo­rito num deter­mi­nado momento pode, três meses depois, ter sido arru­mado numa gaveta e esquecido.
Mas há outro fator ainda mais impor­tante, que deriva da psi­co­lo­gia humana.
Quando estive em Angola pela pri­meira vez tra­ba­lhei com umaONG que agia na área da pre­ven­ção da AIDS. Uma das coi­sas que me sur­pre­en­deu foi que, nas suas ações de cam­pa­nha, ven­diam os pre­ser­va­ti­vos por um preço irrisório.
Quando per­gun­tei por­que não os ofe­re­ciam, já que o preço era tão baixo, deram-​​me uma expli­ca­ção que nunca mais esqueci: sem­pre que ofe­re­ciam os pre­ser­va­ti­vos as pes­soas não lhes davam valor e não os usavam.
Pelo con­trá­rio, quando pediam algum dinheiro pelos pre­ser­va­ti­vos, mesmo que fosse muito pouco, aumen­tava a sua cre­di­bi­li­dade e a pro­ba­bi­li­dade de serem usados.
Pen­se­mos nos nos­sos guiões da mesma forma.
Quando os ofe­re­ce­mos esta­mos, na prá­tica, a tirar-​​lhes o valor. E, não tendo valor, a sua pro­ba­bi­li­dade de virem a ser uti­li­za­dos dimi­nui muito.
Se um pro­du­tor tem três ou qua­tro pro­je­tos em curso, e só inves­tiu dinheiro do seu bolso num deles, a qual é que vai dar mais aten­ção: aos que lhe caí­ram no colo, de graça e sem esforço? Ou àquele em que está a pagar juros ao banco?
Pior ainda — tra­ba­lhando sem remu­ne­ra­ção esta­mos a desvalorizar-​​nos a nós mes­mos. E se nós não nos valo­ri­za­mos, por­que outros o hão de fazer?

O custo de oportunidade

Há uma outra razão para não escre­ver de graça. Seth Godin refere-​​a num artigo de ontem: é o custo de oportunidade.
As horas que pas­sa­mos a tra­ba­lhar sem remu­ne­ra­ção são horas em que não esta­mos a tra­ba­lhar em pro­je­tos remu­ne­ra­dos. Ou, pelo menos, a tra­ba­lhar em pro­je­tos nos­sos, que mais à frente nos pode­riam tra­zer dividendos.
São, tam­bém, horas em que não esta­mos com a nossa famí­lia, com os nos­sos ami­gos, ou a cui­dar de nós. Qual o valor que damos a isso?
Numa época em que todos, de uma forma ou de outra, ven­de­mos o nosso tempo, este torna-​​se a moeda mais preciosa.
Como Seth Godin sali­enta, dizer “não” tem um custo, mas dizer “sim” tam­bém tem.

Como agir então?

O prin­cí­pio é sim­ples: só tra­ba­lhe de graça quando está a escre­ver para si pró­prio, por sua ini­ci­a­tiva, num pro­jeto de seu inte­resse.
Tudo o que não encaixe nesta defi­ni­ção é uma encomenda.
“Pre­ciso de uma sinopse, uma coisa sim­ples, só duas ou três pági­nas” — é uma encomenda.
“Tenho este guião, que é muito bom, mas que­ria dar-​​lhe uma revi­são­zi­nha; fazes isso num ins­tante” — é uma encomenda.
“Ado­rei o teu pro­jeto e acho que vou ficar com ele. Mas gos­tava de ver umas peque­nas alte­ra­ções para ter mesmo a cer­teza” — é uma encomenda.
E uma enco­menda de escrita nunca deve ser aceite:
1.    Se não hou­ver remu­ne­ra­ção em cima da mesa;
2.    Se não hou­ver um con­trato escrito e assi­nado pelas duas partes.
O valor da remu­ne­ra­ção pode variar muito; as moda­li­da­des de paga­mento e os pra­zos tam­bém; os ter­mos do con­trato, idem idem.
Mas nunca aceite tra­ba­lhar por enco­menda sem remu­ne­ra­ção e sem contrato.

E não pode haver excepções?

Claro que sim. Para tudo na vida há excepções.
Se fez o curso de cinema com um amigo pro­du­tor, ambos estão a come­çar as car­rei­ras, ele tem ainda menos dinheiro do que você, e os dois ado­ram o pro­jeto — por amor de Deus, escreva o guião.
Se é um filme inde­pen­dente ultra low cost, em que nin­guém, do rea­li­za­dor ao assis­tente de pro­du­ção, vai ser remu­ne­rado — vá na fé e escreva de graça.
Se está a namo­rar o rea­li­za­dor de uma curta-​​metragem (uma longa já é outra con­versa…), não seja egoísta — escreva o guião de que ele pre­cisa. O amor é lindo.
Mas, mesmo que não haja dinheiro envol­vido, faça sem­pre um contrato.
Quando o guião for pro­du­zido, o filme indie der dinheiro, a curta come­çar a ganhar prê­mios em fes­ti­vais, vai agradecer-​​me por este conselho.

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