12 junho 2006

Promessa (é) de vida

Promessa (é) de vida.
por Paula Cury

Bateu na porta. Não tinha muita certeza do que fazia ali ou do que deveria fazer. Provavelmente era a única possibilidade. Caso contrário não se aproximaria daquele lugar.
A porta balançou mal presa nas dobradiças e rangeu um abrir fresta.
Aproximou o rosto e tentou alcançar com os olhos o interior. Tudo meio escuro. Tudo meio abandonado, mas havia um cheiro no ar. Um cheiro que fez lembrar o estômago vazio desde a hora do café da manhã. A pressa não permitiu o pão com manteiga, nem tão pouco o almoço no refeitório da empresa e já era quase hora do jantar.
A fome, agora, incomodava. Era como acordar defuntos e ser assombrado por todos eles. O estômago roncava o desespero de quem se perde num deserto sem oásis para acalmar.
A vontade era rir dos pensamentos sem muito sentido, embora o receio mandasse acalmar os ânimos e bater novamente na porta.
O silêncio respondeu, enquanto os segundos passavam lentos.
Deu três passos para trás, fungou a fome no cheiro que escapava pela porta e voltou para o carro.
Tentou pela centésima vez fazê-lo funcionar. Antes ainda, havia o ronco do contato. Agora nem isso. Apenas um mísero “tec” avisava que não havia jeito.
A bomba de gasolina. Não era a primeira vez. Tantas outras vezes havia pifado. Uma boa martelada, sobre o tampão que fica sob o banco traseiro, resolvia a situação, mas hoje nem todos os martelos do mundo ajudariam. Parecia mesmo que era o fim. O fim do carro. Morto. O carro estava morto com todas as letras.
Morto como tudo. E tudo parecia morrer: o casamento, a empresa falida, a hipoteca vencida, o carro...
Poderia acabar com o pouco que lhe restava, mas o bendito carro não funcionava e por isso desistiu de se asfixiar com o gás carbônico do escapamento, talvez, até, a boca queimasse antes, grudada à saída do gás, e morrer com dor, com certeza, não era seu último desejo.
A noite caia arrastada e todos os azuis passaram por seus olhos lembrando que ninguém o esperava. Ninguém sentiria sua falta, a não ser o estômago que, agora, gritava todos os vazios do mundo. E tudo a sua volta era vazio. Estava parado naquela estrada há mais de hora e ninguém havia passado. Pessoa, carro, ônibus, animal ou bicicleta. Nada. Estava só como sempre. Como sempre havia se sentido. Só.
Abaixou o banco e fechou os olhos, talvez pudesse cochilar, porém o estômago fazia questão de perturbar o início de sono que parecia querer tomar conta dos olhos, do corpo e da cabeça.
Cansou de esperar. Olhou para a construção que escurecia junto com a noite. Dali há poucos minutos tudo ficaria negro e não havia sinal de lua no céu.
Lembrou o cheiro que havia sentido e resolveu voltar ao barraco. Era um barraco, sim. Pobre, horrível, caindo aos pedaços e, em sua cabeça, ele se viu morando num barraco igual, em meio à pessoas feias, desdentadas, crianças barrigudas correndo sem roupa, narizes escorrendo. Era o fim.
A porta entreaberta. Resolveu dizer um “olá”, mas não houve resposta. Empurrou de leve a porta, como se fosse o vento. Tudo era escuro, agora.
Procurou algum interruptor tateando a parede. Não havia.
Os olhos tentaram acostumar com o breu e já conseguiam enxergar alguma coisa mais clara ou mais escura quase próxima à porta.
Entrou feito ladrão de desenho animado e, por um segundo, se viu atrás das grades por invadir um barraco qualquer. Não seria nada ruim ser trancafiado numa cela com direito a comida e banho de sol sem ter de trabalhar. Com certeza as companhias não seriam das melhores, enfim, nem tudo é perfeito.
Parou em frente ao que lhe parecia uma mesa. Novamente forçou os olhos. Um prato parecia flutuar sobre ela. O cenho franziu mais um pouco, lembrando os óculos que não foram feitos por falta de dinheiro. Havia algo dentro do prato, era certo e também era certo que era dali que vinha o tão misterioso cheiro.
Era pegar ou largar. Fosse preso ou não, naquele momento deixou o estômago decidir. Enfiou a mão no prato e agarrou um bom pedaço. Seus dedos assimilaram, talvez, uma torta ou um bolo ou ainda algo do gênero. Cheirou e com toda pressa do mundo enfiou na boca. A boca cheia. Os dedos lambuzados, lambidos e re-lambidos. A mão perseguiu mais um naco perdido no prato. Comeu. Chupou os dedos e queria mais. Naquele momento era tudo o que queria. Procurou pelo barraco, tateando paredes e objetos. Como não encontrou novos pedaços daquele manjar, disse a si mesmo que esperaria o dono da casa chegar. Nada mais importava, como já não importava mesmo. Ele queria mais um pedaço ou mais alguns muitos pedaços daquele sabor incomparável, mesmo que fosse preciso matar. Ele sabia que mataria. Tinha certeza de que mataria ou morreria. Era tudo ou nada e pensou sorrindo algum sarcasmo que sairia vencedor em ambos os casos.
Não encontrou cadeira e por isso sentou-se no chão encostado à parede.
Esperou. Esperou. Esperou tanto que, de tanto esperar acabou por dormir.
Acordou no susto de ser cutucado. Abriu os olhos e a imagem desfocada de uma mulher foi tomando forma na luz de um lampião colocado sobre a mesa.
Levantou rápido, arrumando a roupa e o cabelo e só sabia pedir desculpas e tentar esclarecer o que fazia ali e porque e desde quando.
A mulher olhava e não dizia nada. Era idosa, talvez não tão velha quanto aparentava. Os cabelos grisalhos presos numa longa trança. Rugas tomavam conta de todo o rosto. Olhos azuis. Azuis tão claros que chegavam a ser espelho dos olhos que a encaravam.
Douglas se apresentou. Contou do carro e também que havia batido na porta e tudo o mais. Só não falou do “roubo” alimentar. Não sabia como dizer. Até tentou, mas nada lhe saiu da garganta. Procurou no peito a coragem que acreditava ter, porém aqueles olhos azuis paralisavam seus movimentos.
A mulher olhou para a mesa. Seu rosto corou e seus olhos abriram tanto que pareciam querer pular das órbitas. O prato vazio. Estava brava. Muito brava e queria saber quem era Douglas para invadir sua casa e o que ele queria e além de tudo como tinha ousado comer sua torta de maçã. A mulher gritava e andava de um lado para o outro encarando Douglas. Douglas, calado, seguia com os olhos a velha. Estava com medo. Medo de uma velhinha. Perdera tudo na vida e ainda era covarde. Que raio de vida era aquela? Balbuciou um pedido de desculpas e tentou dizer que pagaria pela torta.
A velha parou e encarou o rapaz. Pagaria pela torta? E se ela não quisesse dinheiro? Com o que ele faria o pagamento?
Douglas não soube responder. Calou os olhos sem palavra.
O silêncio incomodou. Os dois calados apenas se olhavam.
O rosto da mulher foi empalidecendo até tomar o tom natural de rostos idosos, um tanto quanto opaco. Com voz calma a velha disse que pensaria em algo para receber em troca da torta que Douglas havia comido, mas que agora era preciso fazer uma nova torta e quem faria seria ele. Douglas surpreendeu a ordem da mulher, mas resolveu por bem, fazer a torta. Se ficasse boa ele bem poderia comer um pedaço ou dois.
A velha juntou os ingredientes sobre a mesa e começou a ditar os afazeres e como deveria peneirar a farinha, polvilhar o açúcar lentamente e cortar a maçã...
A maçã.
Não havia maçã alguma e Douglas ficou sem saber o que fazer. A mulher saiu do barraco e voltou em seguida com uma maçã nas mãos. Ofereceu à Douglas que a pegou e começou a picar, exatamente como a velha havia mandado.
Tudo pronto. A torta foi ao forno.
Para passar o tempo de esperar a torta dourar, a velha propôs a Douglas ler sua sorte. Não que ele acreditasse muito em cartas ou búzios ou qualquer coisa de adivinhação, mas estava lá e queria outro pedaço de torta, porque não aceitar? Aceitou. A velha buscou dois caixotes num canto qualquer escuro do barraco. Entregou um a Douglas e sentou-se sobre o outro. As cartas surgiram do bolso do vestido e foram embaralhadas e cortadas e embaralhadas e cortadas novamente e por fim postas na mesa.
Douglas olhava com uma certa curiosidade, tentando entender como se consegue ler alguma coisa em cartas de baralho e nem buraco ele sabia jogar.
A velha olhou e olhou novamente as cartas e sua boca sorriu um pouco de cinismo. Com voz mansa de boa velhinha ela disse a Douglas que já sabia o que queria dele.
Douglas estranhou, mas perguntou o que era.
A resposta da velha foi seca, suave, mas seca. Ela queria o que fosse de mais precioso para Douglas.
A gargalhada foi sonora. Douglas quase chorou de tanto que riu. O que era mais precioso para ele? Entre uma risada e outra lembrou do carro quebrado, parado na estrada. Só podia ser isso. O carro. Afinal era a única coisa que Douglas tinha. As lágrimas corriam soltas na face de Douglas que, tentando segurar mais uma gargalhada aceitou. Daria à velha, o que lhe era mais precioso.
A leitura das cartas teve início e, depois de falar do passado e do presente, tudo muito certinho como o próprio Douglas afirmou, a velha passou a ler o futuro. Douglas viveria penas mais dez anos.
Dez anos? Perguntou Douglas. Por mim não viveria mais um segundo que fosse. O que faço com mais dez anos?
Perguntou e perguntou tanto que a velha não agüentou, mandou que ele se calasse. Ela iria explicar, mas primeiro precisava tirar a torta do forno. Estava pronta.
O cheiro realmente havia tomado conta do casebre. Douglas salivava a vontade do pedaço que lhe cabia. A velha cortou dois grandes pedaços e colocou em pratinhos separados. Um para ela. Outro para Douglas que atacou a torta como faminto sem um pranto de comida, como diria Lulu Santos.
A mulher comia lentamente e falava entre uma mordida e outra que os dez anos que restavam á Douglas seriam os mais felizes de sua vida.
Douglas limpou a boca na manga da camisa e prestou atenção nas palavras da velha. Seriam os dez anos mais felizes de sua vida. Ele não acreditou, a velha insistiu. Douglas parou e pensou que podia até ser possível. Já havia sofrido tanto, merecia ser feliz, mesmo que apenas por dez anos. Resolveu ir embora. Sairia dali a pé, mesmo. A felicidade não podia esperar. Agradeceu à velha, dando-lhe um longo e apertado abraço. Despediu-se e já cruzava a porta quando ouviu a velha cobrar a dívida.
Douglas correu até o carro e pegou a chave. Iria entregar à velha como prometido. Estava voltando para o barraco quando uma forte dor apertou o peito. Seu braço direito parecia querer contorcer de dor e o ar já não entrava nos pulmões. Tentou gritar um socorro, mas a voz não saía. Caiu no acostamento da estrada com a chave do carro presa entre os dedos. Esticou o braço em direção ao casebre e por um segundo entendeu que o carro não era o seu bem mais precioso.
Era tarde demais e a estrada estava vazia.


Fim

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