13 agosto 2008

1ª palestra do "Workshop of Screenwriting" de Syd Field

1º relatório do "Workshop of Screenwriting" de Syd Field, ministrado na sede da Alumni em São Paulo, em 11/08/08 (segunda-feira).

Na primeira palestra de ontem (segunda-feira, 11/08/08), Syd Field abordou o que considera “Evolução e Revolução” dos roteiros de cinema.

Ele trouxe à baila os conceitos de EVOLUÇÃO (desenvolvimento gradativo em que há crescimento e aprofundamento) e de REVOLUÇÃO (espécie de rompimento com parâmetros pré-estabelecidos), para daí afirmar que hoje vivemos um momento de ruptura na linguagem cinematográfica tradicional.

Para ilustrar o primeiro estágio, o da evolução – do desenvolvimento e consolidação na narrativa clássica -, ele trouxe trechos de vários filmes.

Começamos assistindo parte de “Casablanca”, numa cena em que Humphrey Bogart conversa com o chefe de polícia local. O diálogo é longo, rico, e – claro - representativo da era de ouro do cinema norte-americano.

Porém Field contou uma história interessante: para testar os jovens produtores de Hollywood, o roteiro foi enviado como se fosse original, trocando-se o título por “Ricky’s bar”. As recusas julgaram-no como “too talkie”, “excess of dialogue” e também “old-fashionables approach and theme”. Algo como “muito falatório”, “excesso de diálogos” e “trama e abordagem fora de moda”...

Hoje em dia, segundo Field, com os recursos tecnológicos e a defesa plena do “TO SHOW, NOT TO TELL”, a linguagem cinematográfica trocou diálogos explicativos por imagens. Daí o roteiro de "Casablanca" não causar mais o mesmo impacto, não obstante o filme seja um clássico.

Pegando esse gancho, o palestrante falou que diálogos explicativos e auto-referenciais seriam coisa de “play” (peça teatral) e não mais de cinema. Até mesmo a literatura (sobretudo as “novels” norte-americanas) estariam buscando o esquema narrativo cinematográfico: buscando linguagem e diálogos diretos, diminuindo o espaço para digressões filosófico-culturais do autor e se valendo de “incidentes de ação”, como mecanismo de prender o leitor à narrativa.

Para Field, a tendência contemporânea é a narrativa não-linear, utilizando-se dos recursos de “flashbacks” e “flashforwards”, seja para externar a profundidade dos personagens, seja para aclarar a trama ou criar ganchos narrativos. O uso de “voice over” – recurso defendido por Field e que pessoalmente o agrada– também entraria nesta esteira, e desde que bem utilizado, não depreciaria a qualidade do roteiro como muitos afirmam.

Para ilustrar o ponto de vista do autor e o que considera “Revolution of storytelling”, vieram trechos de outros filmes, desta vez contemporâneos.

Foram apresentados trechos de “Juno”, “Matrix”, “American Beauty” e “Bourne Supremacy”.

Em “Juno”, Field mostrou a seqüência inicial de apresentação da protagonista, que se inicia com ela diante de uma velha poltrona, um pequeno “voice over” seguido de um curto “flashback” (dia em que transou com o namorado) e depois a seqüência de “animação” apresentando os créditos (e dando o tom da narrativa) e afinal o diálogo dela na loja de conveniência com o caixa (mostrando o humor e a irreverência da abordagem, bem como explicitando a questão central do filme: a garota está grávida).

Com “Juno”, Field procurou demonstrar que os roteiristas, atualmente, procuram apresentar os personagens de forma mais rápida e mais visual. Vale lembrar que o roteiro desse filme, escrito pela ex-stripper Diablo Cody, ganhou o Oscar de melhor roteiro original de 2008.

Field pensa que nos 10 minutos iniciais de um filme, deve estar claro ao espectador:
a) quem é o personagem que vamos acompanhar; b) sobre o que é a história; c) qual o tom da narrativa e d) quais os conflitos que serão apresentados. Mais tempo que isso, e possivelmente o espectador-médio vai começar a se sentir incomodado, se perguntando: “mas sobre o que é esse filme? Será que comprei pipoca o suficiente? O banheiro é longe?”.

Nesse sentido, Field aproveita para comentar que não se trata de uma regra propriamente dita. Que essa percepção de “timing” não veio de “cima para baixo”, mas “de baixo para cima”, fruto de quase 30 anos de experiência como analista de roteiros em Hollywood. Ele não nega que é, sim, uma formatação com vistas à satisfação do público, mas aproveita para ressaltar que é dessa forma que se garante a própria sobrevivência da indústria do cinema, até que venha um filme que rompa e mostre que há novas maneiras de se contar uma história.

Então Field prosseguiu discorrendo sobre a rapidez das narrativas atuais e que é justamente graças a essa “non linear storytelling” que se tornou possível reduzir a introdução de um filme, trocando diálogos que tomavam tempo por cenas visuais e simbólicas que aprofundam e multi-dimensionam as personagens.

Foi apresentada então a seqüência inicial do filme “Matrix” (cena em que a personagem Trinity é cercada por policiais em uma antiga fábrica e começa a saltar, pular e se defender de forma sobre-humana). Segundo ele, o filme se tornou referência mundial, sobretudo gráfico-visual e que a seqüência apresentada tem valor didático, na medida em que demonstra os meandros da “suspensão da descrença” (“willing suspension of desbelief”), sempre fundamental em filmes que abordam universos fantásticos. Ou seja, o prólogo composto por uma seqüência de ação vem justamente para introduzir o espectador às regras da realismo-fantástico que se sucederá.

Em “Bourne Supremacy”, Field também comentou a troca dos diálogos por informações visuais, como a agenda de Bourne sendo mexida por sua namorada enquanto ele se exercita freneticamente na praia. Ambas as cenas trazem informações visuais sobre a “natureza especial” do protagonista, sem que seja necessário qualquer diálogo nesse sentido.

Já em “American Beauty”, Field falou da irônica e necessária “voice over” do protagonista – que afirma que estará morto dali a um ano - e também do uso de elementos simbólicos, como as rosas vermelhas da esposa, contribuindo para o “storytelling” – o vermelho-intenso está em pontos estratégicos da narrativa, para se contrapor à monotonia da vida do protagonista. Nesse sentido, Fiel ainda afirma que a maestria do roteirista também reside nessa antecipação de alguns elementos simbólicos, que darão o tom de sua narrativa. E que isso vem, justamente, para minimizar o excesso de diálogos explicativos.

Após comentar seqüências selecionadas de aproximadamente sete ou oito filmes, Field fez um intervalo de quinze minutos.
No retorno, abriu espaço para PERGUNTAS.


Sobre os recursos visuais/sonoros do “to show, not to tell” e a não-linearidade:
A maioria das perguntas girou em torno do (polêmico) uso de “voice over”, da quantificação no uso de “flashbacks” e “flashforwards” e se a narrativa contemporânea está, realmente, passando para um estágio de “não-linearidade” e estruturação em mosaico, ou se tudo isso é apenas um modismo passageiro.

Field acredita que não. Diz que a não-linearidade veio para ficar, e por isso ter criado o tópico “revolution of storytelling”. Fez então uma comparação com as fases da pintura no Século XX – impressionismo, expressionismo, cubismo, surrealismo etc. – e que a utilização de recursos narrativos visuais virá para imprimir cada vez mais a sua marca. Então “flashs” e “voices” vieram para ficar, até que uma nova forma de “storytelling” venha romper novamente o “standard”.

Sobre adaptação de romances:
Syd Field ainda foi questionado sobre a adaptação de romances para a telona. Respondeu com o brocardo norte-americano de que “an orange is an orange, an apple is an apple” e que tal processo criativo deve ser entendido como a construção de um roteiro ORIGINAL baseado em uma obra literária. Entender de outra forma, buscando excesso de fidelidade, é não entender que estamos diante de veículos muito diferentes. O correto é buscar a essência da história literária, sem excesso de apego, e transpô-la da forma mais adequada para garantir o sucesso narrativo da película.

Sobre rubricas e tons interpretativos:
Field disse que o roteirista deve, tanto quanto possível, retirar todas as rubricas e tons interpretativos. Discorreu um pouco sobre o necessário despreendimento que todo autor deve ter de seu texto, lembrando sempre que um filme é um trabalho coletivo. Além do dedo do diretor, os atores também querem se sentir livres para criar. Então nada de tons ou rubricas em excesso, a não ser que tenham absoluta relevância para o desenvolvimento narrativo da trama.

Um comentário:

Paulo Aragão disse...

E aí, Leonardo!
Muito bom seu blog, cara!
Adorei os relatórios do workshop do Syd Field, foi como se eu estive lá presente.
Valeu!