06 setembro 2006

Roteiro#15 - Discussão entre Marido e Mulher

DISCUSSÃO ENTRE
MARIDO E MULHER –
TRAIÇÃO AMOROSA

AMBIENTE: APARTAMENTO CLASSE MÉDIA

PERSONAGENS:
JÚLIO, 33 ANOS, ADVOGADO
MARISA, 31 ANOS, PROFESSORA

CENÁRIO: APARTAMENTO ESPAÇOSO, COM MÓVEIS MODERNOS, DECORAÇÃO DE MUITO BOM GOSTO. OBJETO ALGUM DO AMBIENTE (COMO SOFÁ, PORTA-RETRATOS, CORTINA) TEM GRANDE IMPORTÂNCIA PARA O DIÁLOGO QUE SEGUE.


AMBIENTE POUCO CLARO. A CAMPAINHA TOCA. MARISA LOGO APARECE, CAMINHANDO EM DIREÇÃO À PORTA.

MARISA – Quem será, a essa hora... (abre a porta e logo se espanta) Júlio!

JÚLIO – (bem sério, com um pouco de receio) Oi, Marisa. Como vai?

MARISA – Bem. E você?

JÚLIO –Também. (aproxima-se) Posso entrar?

MEIO CONTRARIADA, MARISA ABRE PASSAGEM PARA ELE. JÚLIO ENTRA, CALADO. ELA FECHA A PORTA SEM FAZER MUITO BARULHO.

JÚLIO – Eu... eu queria conversar com você. Pode ser agora?

MARISA
Acabei de sair do quarto das crianças, tava contando histórias pra elas dormirem, acabaram conseguindo. Estava indo me deitar.

JÚLIO
E elas... como estão?

MARISA
Depois do que passaram... até que estão sim, como eu, muito bem.

JÚLIO
Eu sinto muita falta delas...

MARISA
(com má vontade, quer que ele vá embora)
Pois é, mas, como você já sabe, não vai ser possível matar a saudade delas agora/

JÚLIO (interrompe-a)
Espera, Marisa. Espera. Como eu já disse, estou querendo muito ter uma conversa com você, séria, aberta, como a gente nunca teve.

MARISA (ri levemente, com ironia)
Conversa séria, aberta? Não acha que tá um pouco tarde pra isso? Literalmente e não literalmente?

JÚLIO (insiste)
Isa... eu sei, eu entendo que você continua muito magoada comigo, que eu te feri muito, fui um crápula, não só com você, com os meninos também, mas, mesmo assim... me deixa explicar, me deixa eu me abrir com você, falar de mim... eu preciso.

MARISA
Ouvindo você falar assim... parece uma piada.

JÚLIO
Estou falando sério, não é brincadeira.

MARISA
Eu sei, quero dizer, não duvido, eu acredito nas suas palavras, na sua vontade de se expor, de desabafar comigo... Eu confio na sua sinceridade. O que eu acho curioso é que você só está agindo dessa maneira quando não estamos mais casados...

JÚLIO
Ainda estamos casados...

MARISA
Mas não estamos mais juntos, foi isso o que eu quis dizer, e você entendeu. Dividindo um teto, tendo uma vida a dois... Hoje você quer desabafar, ter uma conversa aberta... mas naquela época, acontecia o contrário. Era eu quem queria trocar idéias com você, ora falar de coisas bobas, sem urgência, ora tratar de assuntos sérios, importantes... o que me faltava, ou melhor, o que nos faltava, era uma coisa simples, mas muito necessária, fundamental: diálogo.

JÚLIO(tenta se defender)
Eu era um homem muito ocupado, Isa, o trabalho nunca me deu folga, você sabe, mil assuntos a resolver num dia só, uma correria sem fim, um stress danado...

MARISA (ironiza)
Só o trabalho? Vai me dizer agora que sempre se ocupou só com o escritório? Mil assuntos a resolver? E como é que arranjava tempo e disposição pra se encontrar com aquela desfrutável que dizia ser minha amiga? Será que você sacrificava os momentos em que poderia estar com seus filhos pra tirar o atraso? Que pena que o seu discurso baixou de nível, você tava indo tão bem... nem as crianças se sentiriam convencidas com essa sua conversa ridícula.

JÚLIO (meio nervoso, ofendido)
Pára com isso, Isa!

MARISA
Fala baixo, as crianças estão na cama!

JÚLIO(defende-se)
Eu nunca tive nada sério com a Marlene, você tem que acreditar... um caso sem importância alguma pra mim, ela nunca significou nada de verdade pra mim! Sempre aparecia no escritório... eu não saía de lá pra nada, nem pra almoçar, e ela sempre lá, se oferecendo, se mostrando disponível... eu reconheço, fui um canalha de não ter resistido às investidas dela, mas em nenhum momento a relação que eu tive com ela trouxe algo de significativo pra minha vida, felicidade, tranqüilidade, nada disso! Uma aventura que não disse mais nada, a não ser que sou um homem cheio de defeitos, de fraquezas...

MARISA
Você teve uma “aventura” que disse muita coisa, Júlio. Tanto pra você quanto pra mim. Sem falta modéstia, foi graças a ela que eu descobri que você nunca me mereceu, que você nunca teve vocação pra fazer parte do casamento com o qual eu sempre sonhei. A sua pulada me fez ter certeza de uma coisa que eu não queria assumir enquanto estávamos juntos: que você se dá bem melhor com mulheres como a Marlene do que comigo e, logo, que não combinamos... que não nascemos um pro outro.

JÚLIO
Todo mundo diz que a gente só dá valor às coisas quando as perde, mas pouca gente dá muita bola pra isso. Eu, por exemplo. Sempre tive uma mulher maravilhosa, uma companheira honesta, digna... filhos inteligentes, bondosos, esforçados... e dei pouco valor, pra não dizer nenhum. Hoje eu sou capaz de enxergar que não fui um bom marido, nem um pai presente...
que eu faltei em momentos que as crianças precisavam de mim.
(aproxima-se dela, que, nesse momento, esquiva-se)
Mas, Isa, eu tô disposto a mudar, a ser o pai de família que nunca fui antes... e, pra provar isso, eu preciso do seu perdão, da sua compreensão. Não me negue a oportunidade de me tornar o marido que você quis que eu fosse.

MARISA
Quis, Júlio, quis. Não quero mais. A decepção que você me fez sofrer me fez tirar da cabeça e do coração o desejo de ver você mudado, transformado, de te ver dando pra mim e pros seus filhos a atenção e o carinho que qualquer pai de família deve dar a ela.

JÚLIO
Eu não consigo acreditar que você não sinta mais nada por mim.

MARISA
(tempo)
Sinto. Sinto pena.

JÚLIO
(choca-se)
Pena?

MARISA (começa a se emocionar)
Pena, mais nada. Porque você é um fraco. Porque você dispensou o amor, que não era pouco,
que eu tinha a lhe dar...

JÚLIO (interrompe-a)
Se não era pouco, é impossível que tenha se acabado!

MARISA (cont.)
Porque você jogou pro vento o lar que um dia a gente disse um pro outro que ia construir. Um lar feliz, alegre, onde todos se amam! Mas isso não pôde acontecer... porque você nunca soube o que quis!

JÚLIO
É verdade, Isa, que eu fui um fraco, que eu nunca decidi ao certo o que queria pra mim, mas isso é passado, ficou pra trás, eu estou diferente... o erro que eu cometi me fez enxergar uma porção de coisas que eu não podia ou não queria enxergar, como, por exemplo... que eu te amo! Que eu te quero, que eu quero os meus filhos por perto, os nossos filhos, que eu desejo um lar pra nós todos, o mesmo que você tanto lutou pra conseguir, mas não teve sucesso porque eu não fiz a minha parte! Esquece tudo o que aconteceu, Isa, me perdoa... que você passe uma borracha no que passou... que você me veja como um homem que acabou de conhecer e que pelo qual começou a se interessar... é tudo o que eu quero.

MARISA
Júlio... chega de se humilhar. Acabou. Não tem mais jeito! Que você esteja arrependido, que você tenha vontade de reatar comigo, de tentar ser uma família de verdade, eu até acredito. Mas essa sinceridade sua não me faz estar certa de que eu não vou passar de novo pelo que já passei uma vez. Ninguém pode me assegurar que você não vá voltar a se interessar por outra mulher. Eu não tenho estômago suficiente pra digerir novamente àquela cena lastimável que eu presenciei naquele dia. Eu tô muito bem como estou, sem você, eu e Deus, ninguém mais. Ainda vai demorar um pouco pra eu sentir falta de alguém dormindo na mesma cama que eu, nem que seja por dias espaçados, duas, três vezes por semana. Pode parecer que eu esteja pensando só em mim, não levando em conta o desejo dos meninos de que você volte... mas eu também tô pensando neles... eles talvez se decepcionariam mais do que eu se você desperdiçasse uma nova chance. Vai embora, Júlio. Faz o favor de não nos procurar mais. Já tá tarde, amanhã é dia de trabalho. Pra mim e pra você.

JÚLIO
(já à porta)
Eu não vou desistir, Marisa, não vou. Tenho certeza de que você ainda me perdoar... a gente vai começar do zero... e ser um casal feliz de verdade.
(abre a porta e fica do lado de fora)
Boa noite.

MARISA
Boa noite.

MARISA FECHA A PORTA E DEIXA ROLAR NO ROSTO ALGUMAS LÁGRIMAS. DEPOIS, SAI DA SALA E VAI PRO QUARTO.

FIM

3 comentários:

Anônimo disse...

Um texto bastante criativo.

Filipe Figueiredo disse...

Realmente, a cena ficou ótima. Só achei que tiveram algumas falas muito carregadas. Mas passou verdade, emoção, coerência. Gostei muito mesmo. Fiz a experiência de ler o texto em voz alta e os diálogos fluiram muito naturalmente.

FRANCISCO MALTA disse...

Parabéns!
Cena perfeitra,começo,meio , fim,e toda narrativa bem amarrada.
abs
Francisco